Deixaste-me
Acordo na manhã serena, ainda embalado pelo sono ingénuo, embalado pelo sono tranquilo daqueles que não sabem que vão morrer, daqueles que não sabem que o sangue vai fervilhar às mãos de um amor que pensaram eterno. Deixaste-me.
Sou perdido dentro de mim na ignorância do vazio, sinto o fim debaixo da minha pele, sinto partir o coração, sinto morrer-me nas praias do que outrora foi a minha razão de viver, sinto morrer-me em ti. Foi hoje que me deixaste.
Caminho lento sem saber para onde ir, tudo se torna estranho no remoinho dos sentidos, as formas suaves do teu rosto envolvem-me no nevoeiro da ilusão, estou aqui sem ti, estou aqui agarrado à carne sentimental de um passado escrito nas pedras do amor. Sou eu, escrito nos teus lábios, morto, agarrado ao teu corpo, sonhado-te nas mais pálidas imagens da vida. Sou teu, sou eu jogado a teus pés, querendo-te, desejando-te. Sou despojos de vida, sou o mais baixo dos mundos, sou um pedaço de folha de papel, o pedaço onde escrevemos a nossa história de amor, o pedaço arrancado do coração, do coração desfeito, pregado ao fim, pregado a ti. Deixaste-me e eu morro.
Amo-te, ainda, não devo, mas amo. Deixaste-me e eu morro, deixaste-me e já não sei viver, assim não posso continuar, assim o fim é mais do que o caminho a chegar, é a solução final. Pedaço de céu caindo na terra, ter com luz o mar, sentir as palavras vãs, sentir-te nos mais pequenos olhares. Sou teu como nunca serei de ninguém, sou teu para sempre, mas hoje não, hoje sou da morte, hoje sou do negro da vida, hoje sou o excremento da terra, o pó sujo da vida, o lixo vivo, a negra e mísera condição humana. Eu sou eu num grito forte arrancado das entranhas do sofrimento, eu sou eu na tristeza de ficar só, eu sou eu dentro de ti, dentro da tua pele, agarrado á tua carne, agarrado á tua existência, eu sou eu no teu sonho, eu sou eu nas tuas escritoras, nas tuas unhas, no teu sangue vermelho que escorre por entre paredes, por entre olhares profundos, eu sou eu a tues pés, jogado, perdido, ignorado. Eu sou eu e tu deixaste-me.
Acordo finalmente mas estou em coma, estou fechado, quieto, amarrado a uma dor límpida e transparente, estou aqui sentado à espera de ti, mas tu não vens, eu sei que não, não podes vir, não queres vir, mas eu vou esperar, quieto, sereno, pálido, gélido, eu vou esperar até ao dia em que os meus olhos se cansem de olhar, o meu coração se canse de bater, as minhas pernas se cansem de tar sentadas, vou esperar por ti sempre, até ao dia em que o sol brilhará pela ultima vez no meu ser, e mesmo assim com a carne a apodrecer, com as entrenhas queimadas, vou continuar a esperar, vou ficar aqui sentado morto à tua espera. Eu sou eu em ti e tu deixaste-me.
O sol brilha lá fora, erradiando vida, mas eu fico quieto à chuva das minhas lágrimas, olhando pela janela, olhando o futuro desvanecer-se á minha leitura, fico na escuridão de meu quarto, parado com as mãos no peito, sentido o buraco de onde me arrancaste o coração. Tenho o peito aberto numa ferida constante, numa dor agoniante, sinto o buraco, sinto os germes consumirem a minha carne, sinto-me um pedaço podre de vida humana, acabo-me e acho que mereço. Morro aos poucos e acho que mereço.Num grito mudo peço para voltares a mim, para me devolveres a vida, para me deixares ser teu nas tuas praias, para me deixares penetrar de novo o teu ser, mas na negação de uma porta fechada, continuo eu de peito aberto, jogado a teus pés, sendo teu despojado de amor próprio, despojado de vida, eu sou eu deitado, jogado ao teu fado, eu sou eu apaixonado por ti, eu sou eu em ti, mas tu deixaste-me.
O sonho continua.....